terça-feira, 19 de junho de 2018

Deriva


Levei os fones mas preferi não tirá-los da mochila. Optei por andar ouvindo os barulhos. Dentre eles, as vogais nas bocas de toda gente era o que mais me interessava. Que saudade desse sotaque! E segui. Pela Avenida Afonso Pena, com pão de queijo na mão e o olhar de criança. O mesmo encantamento que senti ao vir à BH pela primeira vez, quando minha idade preenchia uma mão cheia, ou pouco mais que isso. Naquela altura, recordo de que, ao pararmos no semáforo, o número de pessoas que se aglomerava para atravessar a rua fazia com que eu, meus irmãos e até meus pais vibrássemos: "Olha, olha! Um maaar de gente!" 
Vibrei parecido hoje ao perceber que eu fazia parte daquele mar.
Poetizei cada esquina do tabuleiro de xadrez belorizontino. Cada ambulante que me abordou. As vitrines de salgados e os marcadores de pedestre do semáforo que ao invés do usual bonequinho, trazia monumentos, prédios, igrejas...
Nós somos do papo, do contato, não importa se conhecidos ou não. Totalizei sete abordagens ao longo do meu caminho. Lá fora, havia dias em que absolutamente ninguém se dirigia a mim e que eu se quer ouvia minha voz.
Vi o pirulito betinense cartão postal de BH. Pequeno e grande. Me fez sentir em casa.
Os ônibus verdes, cinzas, azuis e amarelos. O caos próximo à rodoviária.
O "boa tarde" do motorista, totalizando a oitava inteiração do trajeto. 
Agora, a vista da janela do ônibus, a menina falando ao telefone e o casal reclamando do clima. Os bares lá fora, os olhares desconfiados de quem entra no veículo, a espera de quem fica lá fora.

Prevista como uma tarde normal, as horas sem fone na capital me fizeram feliz infinito.
E agora, as próximas horas gastas para os apenas 30km em direção à Betim não vai dar para poetizar não rs.

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