A dor não cabe nas lágrimas. Um gemido de dor. Desespero.
Querido amigo,
Escrevo porque disseram-me que você não me responderia. E é. Eu preciso de algo assim. De um desabafo sem resposta, indagações, cobranças ou mesmo compreensão. Escrevo porque sei que o papel tudo aceita. Aceita tudo aquilo que talvez eu não consiga aceitar, ou talvez só não queira.
Acontece meu amigo, que eu me perdi. Não consigo me encontrar, e pode ser que você mesmo não me reconheça nessas linhas. Não se preocupe: eu também não tenho me reconhecido. O reflexo do espelho, as roupas no cabide, as músicas na playlist, os novos hábitos. Perdi tudo aquilo que me compunha. Tudo aquilo que fazia de mim, eu mesma.
Junto do todo perdido, perdi a perspectiva. Devo dize-lo amigo, o quão frustrante pode ser investir horas dos meus sábados em percursos de Giwell, em palestras sobre como manusear uma bússola ou como se guiar pelo céu. Por que diabos ninguém nunca me ensinou a achar o caminho certo? Não o que me leva de volta para casa e sim aquele que trás a mim de volta para eu mesma?
Será que sempre fui assim e agora esteja apenas vivendo a minha resiliência? Sou vazia, estive cheia como um copo prestes a derramar e agora voltei ao estado normal? Eu penso nisso tudo antes de dormir, e acordo sempre do meu transe com o barulho do galo do vizinho ou afogada em meio as minhas lágrimas. Passar noites em claro não é bom, meu amigo. E começo a fundamentar uma teoria sobre as olheiras: quando surgem, dão aval para que as lágrimas insistam em cair com mais frequência e usem-as como piscinas, poças ou qualquer coisa do tipo. Portanto, seriam as minhas olheiras o atestado do quanto tenho chorado nos últimos tempos. E a propósito, se choro, é porque me permito chorar. E se sofro, é porque me permito sofrer. E se me permito é por me sentir culpada. E se me sinto culpada é por atestar o erro em outrora ter dito "sim" a tudo aquilo que deveria negar, extirpar, não deixar que se apropriasse de mim. Se sofro é unicamente por merecer.
O sofrimento é meu castigo. E no castigo não consigo viver nenhuma emoção edificante. Permaneço então, com minhas noites em claro, desfilando minhas olheiras pelas ruas e me lamentando por não conseguir achar o caminho de volta para o meu eu.