terça-feira, 19 de junho de 2018

Dourado

O Douro, além da água mansa, leva com ele muito mais do que meus pequenos olhos conseguem ver. 
Carrega tantos versos e poemas, um bocado de lágrimas, tanta história quanto uma enciclopédia grande, tanta força quanto se pode ter.
As caves, os vinhedos, o vinho, o Porto e meu encantamento... Nada seria o mesmo sem o Douro.

Lá e cá

Dia de inverno em que o sol brilha com a intenção de nos enganar, ou nos fazer lembrar que ele existe.
Dia de saudade em que o coração bate mais forte ao lembrar do aconchego do lar e ao mesmo tempo da falta que o lado de cá fará.
Dia de domingo, mais um. Com ele, mais quatro e chega a hora do adeus.

Pé de goiaba

E por insistência, ainda que seus olhos percebessem o quão longe de madurar o fruto estivesse, ela subiu na árvore e colheu do pé.
O gosto amargo tomou conta de todo paladar, a culpa da colheita madura tomou conta dela por completo. A projeção do quão mais saborosa seria aquele fruto se colhido no momento certo invadiu seus pesadelos...
Tem sido dias difíceis e nunca antes se valorizou tanto o gosto da maturidade.

Resquícios

Inconstante sejas tu, óh humor!
Inconstante e preguiçoso sejas tu!
Desencorajado sejas tu, óh reflexo do espelho!
Desencorajado e autruísta!
No meu vocábulo já não cabem mais conselhos, gírias ou rimas tolas.
Nos meus olhos já não acumulam-se mais lágrimas...
Descrença! Eis que tu se faz presente.
Maldita então sejas tu, óh recorrente descrença!

Deriva


Levei os fones mas preferi não tirá-los da mochila. Optei por andar ouvindo os barulhos. Dentre eles, as vogais nas bocas de toda gente era o que mais me interessava. Que saudade desse sotaque! E segui. Pela Avenida Afonso Pena, com pão de queijo na mão e o olhar de criança. O mesmo encantamento que senti ao vir à BH pela primeira vez, quando minha idade preenchia uma mão cheia, ou pouco mais que isso. Naquela altura, recordo de que, ao pararmos no semáforo, o número de pessoas que se aglomerava para atravessar a rua fazia com que eu, meus irmãos e até meus pais vibrássemos: "Olha, olha! Um maaar de gente!" 
Vibrei parecido hoje ao perceber que eu fazia parte daquele mar.
Poetizei cada esquina do tabuleiro de xadrez belorizontino. Cada ambulante que me abordou. As vitrines de salgados e os marcadores de pedestre do semáforo que ao invés do usual bonequinho, trazia monumentos, prédios, igrejas...
Nós somos do papo, do contato, não importa se conhecidos ou não. Totalizei sete abordagens ao longo do meu caminho. Lá fora, havia dias em que absolutamente ninguém se dirigia a mim e que eu se quer ouvia minha voz.
Vi o pirulito betinense cartão postal de BH. Pequeno e grande. Me fez sentir em casa.
Os ônibus verdes, cinzas, azuis e amarelos. O caos próximo à rodoviária.
O "boa tarde" do motorista, totalizando a oitava inteiração do trajeto. 
Agora, a vista da janela do ônibus, a menina falando ao telefone e o casal reclamando do clima. Os bares lá fora, os olhares desconfiados de quem entra no veículo, a espera de quem fica lá fora.

Prevista como uma tarde normal, as horas sem fone na capital me fizeram feliz infinito.
E agora, as próximas horas gastas para os apenas 30km em direção à Betim não vai dar para poetizar não rs.

Me sinto só

E os dias em que somente quando o relógio marca o fim do dia é quando escuto minha voz comprova minha solidão.
Não sei o que faço se busco por espaço e me mantenho só.
Se a ausência por aqui se quer foi notada, se o corte de cabelo nem mesmo percebido, se o sapato encardido deu lugar ao salto alto e ninguém nem observou. Notada só para o esculacho.
É o peso que ganhou, a roupa que não lavou, os ferros feios na boca que colocou, as lentes sujas frente aos meus olhos...
Me sinto só. Ainda que tenha que lidar com tanta gente, com tantos números, com vários olhares sob mim.
Não tem sido raras as minhas andanças em meio a multidão. Em que corro do nada para lugar nenhum. Sábado mesmo aconteceu. No domingo também. E na quinta não adicionaram meu nome na lista. Na segunda houve o mesmo.
Sigo remando na superfície, rodeada de pessoas, no meio do Pelourinho em pleno carnaval. E sigo só.
Se o telefone toca é engano. Se a mensagem chega, é pedido. Nunca um convite, nunca um estender de mão.
Me sinto só e não que não dependa de mim, mas, ao visto, continuarei me sentindo.

O Preto Velho me falou que é um passo de cada vez. Me disse que não há degrau que eu não seja capaz de subir.


O Preto Velho se enganou.